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EDITORIAL

Carlos Matias Ramos

Carlos Matias Ramos

Bastonário da Ordem dos Engenheiros

O Setor da Construção em Portugal face à crise económica

A atual crise económica e financeira que afetou, de forma acentuada, o nosso País teve consequências muito relevantes no setor da Construção e do Imobiliário. No que se refere ao setor da Construção, tendo em conta os dados da EUROCONSTRUCT, espera-se, para o período 2012/2014, uma estagnação deste setor na União Europeia (UE), prevendo-se para Portugal um decréscimo médio anual de 7,9%. Se se considerar o sector das infraestruturas, o panorama é mais negro, sendo estimada uma variação média anual, para o mesmo período, para o conjunto dos países da UE, de -1,4%, e para Portugal o valor de -13,1%. A evolução negativa de diversos indicadores revela bem a crise profunda que o setor da Construção atravessa em Portugal, que se torna ainda mais evidente quando comparada com a situação na UE, onde se verifica um aumento, embora ligeiro, da confiança dos empresários. Este aspeto é tanto mais relevante quanto o setor da construção em Portugal tem empresas, tem know-how e tem desempenhado um papel fundamental na economia, tendo promovido, a montante e a jusante, a exportação de outros bens e serviços, para além de dignificar a imagem de Portugal, com prémios internacionais alcançados por obras emblemáticas projetadas e construídas por técnicos portugueses. A aposta na internacionalização tem permitido, designadamente às maiores empresas de construção portuguesas, ultrapassar a situação que se regista em Portugal. A atividade externa, no período compreendido entre 2008 e 2011, de acordo com dados da AECOPS, duplicou, passando de uma faturação de 1.961 milhões de euros para 4.132 milhões, representando atualmente mais de 10% das exportações portuguesas e 4% do PIB nacional. Neste período foram obtidos contratos para obras no mercado internacional no valor de 6,3 mil milhões de euros, constituindo o continente africano como o principal mercado da construção para as empresas portuguesas. No entanto, há que referir que mais de 80% desta atividade é desenvolvida por 50 das nossas maiores empresas de construção, mais qualificadas, em termos de organização e de tecnologia, empresas que, sendo mais estáveis e com maior massa crítica, estão em melhor posição para prestar serviços além-fronteiras, contribuindo para que o setor da construção seja atualmente um setor exportador. Surge, assim, a necessidade de uma reflexão sobre as melhores formas de minimizar os efeitos da crise no setor da Construção, que não passem apenas pela saída, em desespero de causa, das empresas e dos trabalhadores para outros países, com resultados de eficácia duvidosa ou de falência, mas criando condições que as tornem menos vulneráveis. No que se refere designadamente às empresas classificadas como PME, impõem-se ajustamentos no sentido de aumentar a sua competitividade, garantindo massa crítica ajustada às necessidades e exigências dos mercados interno e externo e a permanente preocupação na adoção por parte dessas em presas de novas tecnologias e de metodologias inovadoras. É determinante um apoio a essas empresas no sentido da criação de condições que possam gerar o incentivo ao trabalho em conjunto, estimulando a criação de clusters de empresas especializadas, cada uma com competências específicas e integrando uma abordagem comum que permita ganhos de eficiência indispensáveis num ambiente altamente competitivo, designadamente o mercado externo. É igualmente relevante o estabelecimento de programas de formação credíveis, orientados para uma resposta mais consentânea com as exigências de uma tecnologia sempre em evolução, para especificações e disposições contratuais para as quais os trabalhadores e essas empresas não estão devidamente preparados e para garantir uma adaptação a culturas diferentes. No que se refere ao mercado interno, assume particular relevância a aposta numa política que conduza à efetiva atividade na reabilitação urbana. Sendo a reabilitação referenciada como um desígnio nacional, importa refletir seriamente sobre este problema e definir medidas que ultrapassem os diversos constrangimentos à sua implementação, dos quais os aparentemente mais fáceis estão associados à política fiscal, que não favorece as intervenções na reabilitação, à complexidade das operações urbanísticas e ao “circuito” do licenciamento ao nível das competências e decisões e da sua articulação. Enquanto estes constrangimentos não forem alterados e a confiança restabelecida, a reabilitação urbana continuará a ser um desejo sem significativa expressão.

Carlos