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EDITORIAL

Ricardo Guimarães

Ricardo Guimarães

Diretor da Ci

O Anuário situa a identidade arquitetónica como fator chave na valorização do território enquanto produto

O Anuário Imobiliário e Energético – Obras de 2013 traz-lhe a história e os protagonistas do investimento imobiliário nesse ano, abrangendo a quase totalidade dos principais municípios metropolitanos. Fá-lo em linha com os ideais que estão na base deste projeto.

O primeiro deles é contribuir para o conhecimento da dinâmica do mercado, valorizando-o enquanto pilar para a racionalidade das decisões de investimento e de financiamento, dando não só uma perspetiva estatística das tendências mais recentes como, também, uma leitura individualizada de cada um dos novos projetos lançados, tirando partido da natureza pública e administrativa das fontes de informação usadas, designadamente os dados do licenciamento municipal de obras. O segundo tem por objeto a sustentabilidade, num sentido amplo, englobando a reabilitação urbana, enquanto fator indutor de melhores equilíbrios no consumo e gestão de recursos, e a eficiência energética, enquanto motor de uma mudança crítica no contributo do parque edificado para o deficit energético e a emissão de gases com efeito de estufa. Com a presente edição acrescenta-se uma dimensão adicional: a identidade arquitetónica. Numa época em que as cidades ganham um relevo cada vez maior como polos, quer habitacionais e económicos quer, muito em especial, de atração turística, releva destacar os aspetos qualitativos que contribuem para a geração e preservação de valor territorial. Por coincidência, esse é o tema de uma das teses de doutoramento distinguidas no âmbito do Prémio André Jordan 2014, uma outra iniciativa da Confidencial Imobiliário, na qual a autora densifica essa perceção, expressando que «se o turismo se baseia na exploração do valor dos lugares como produtos e, por isso, depende da atratividade e da singularidade dos mesmos, os urbanistas e os arquitetos são, como princípio, intervenientes fundamentais, se não, mesmo, centrais, na produção do território do turismo»1 .

Considerando este propósito, os autores dos projetos de arquitetura identificados a partir da informação do licenciamento foram convidados a complementar a ficha descritiva de cada imóvel, através de ilustrações. Esse convite foi reforçado pela relevante colaboração das Secções Regionais Norte e Sul da Ordem dos Arquitectos, que intermediaram o contacto com essa comunidade, valorizando a visão de que os aspetos qualitativos são essenciais para o correto conhecimento da realidade do mercado. Naturalmente, este é um objetivo ainda não totalmente alcançado, com clara margem para progressão nas próximas edições.

Esse trajeto faz com que, cada vez mais, o Anuário cumpra com o objetivo de ser o ponto de encontro entre imóveis e atores, dando visibilidade aos projetos de construção licenciados em cada ano, assim como aos respetivos agentes, desde investidores a autores. É um caminho que pode ser cada vez mais largo, envolvendo e destacando outros intervenientes como os projetistas de outras especialidades, peritos da ADENE, empreiteiros e outros fornecedores.

A base de dados do Anuário relativa a 2013 congregou um total de 1.704 projetos alvo da emissão de alvará de construção ou comunicação prévia. Desse universo, 47% são obras de reabilitação, incluindo tipologias diversas desde ampliações, alterações ou reconstruções. Este é um primeiro número que vale a pena destacar, dado representar um aumento de 11 pontos percentuais face a 2012.

Sem surpresa, Lisboa apresenta-se como o mercado mais expressivo. É-o, desde logo, quanto ao volume total de projetos lançados, com 361 obras licenciadas em 2013. Mas é-o também enquanto motor da dinâmica da reabilitação. No caso da Capital, as “obras em edificado” representam 89% do total dos novos projetos licenciados, um número que espelha bem o sentimento que qualquer um de nós colheria através de um simples passeio pela cidade… O mesmo se poderia dizer do Porto, que surge igualmente em destaque. Neste caso, a reabilitação representa 81% dos novos investimentos lançados, abrangendo 126 imóveis de um total de 156 obras. Mas, importa dizer que outras cidades se começam a juntar a estas, designadamente Tavira, Lagos, Faro, Vila do Conde e Alcochete onde a reabilitação supera os 50%.

Esse é um sinal de mudança na construção urbana para a qual o Anuário, monitorizando, acaba também por contribuir.