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EDITORIAL

Augusto Mateus

Augusto Mateus

Presidente do Júri

O imobiliário pode e deve constituir um relevante laboratório de ideias e iniciativas que o possam tornar protagonista de uma saída da crise pela inovação

A economia portuguesa e europeia procuram sair de uma crise económica e financeira de grandes proporções, com consequências gravosas ao nível do emprego e do rendimento disponível e tentando recriar, ao mesmo tempo, bases suficientemente sólidas para um crescimento sustentável e duradouro.

A situação económica e social de emergência que atravessamos não se caracteriza por uma espécie de procura do crescimento económico “perdido” ou por uma espécie de oportunidade financeira para reutilizar as terapias de estímulo orçamental (“deficit spending”) experimentadas com sucesso num passado sem globalização, nem redução do ciclo de vida dos produtos e das tecnologias, nem, sobretudo, sem saturação do nível da despesa pública em função do envelhecimento da população e das exigências da conservação da vida no planeta. Sabemos agora que o verdadeiro desafio não é apenas o de corrigir os erros do passado mas, também, o de reinventar os modelos de produção e de consumo em articulação com um novo equilíbrio entre as realidades urbanas e rurais. Tal como sabemos que os níveis elevados de proteção social e prosperidade alcançados estarão ameaçados no futuro, sem uma profunda renovação dos modelos sociais e das funções dos Estados e dos sectores públicos, que favoreça uma efetiva união entre a competitividade e a coesão económica e social, entre a eficiência na utilização dos recursos e a eficácia na criação e redistribuição da riqueza.

A construção de economias baseadas no conhecimento onde a cultura e a criatividade sejam factores críticos permite enfrentar com otimismo estes desafios, na exata medida em que pressiona reformas estruturais tão decisivas quanto a necessidade de ler o prolongamento da vida humana como uma oportunidade e um valor e não como uma restrição e um custo.

O sector imobiliário, protagonista do despo letar da crise, pode e deve ser, também, protagonista da saída da crise, contribuindo para a renovação das cidades, para a reafectação dos recursos nos sectores ransacionáveis, nomeadamente através do aprofundamento da cadeia de valor do turismo, e para um novo equilíbrio financeiro e patrimonial das famílias construído com mais poupança e melhor consumo.

As cidades são hoje o espaço privilegiado da criação de riqueza, para onde importa atrair talentos, competências e procuras diversificadas, facilitando a incorporação do conhecimento, da cultura e da criatividade nos bens e serviços e nos respectivos processos de aceso, compra e fruição.

As cidades revitalizadas são mais competitivas e mais coesas porque geram mais oportunidades, premiando com mais facilidade os bons investimentos.

Os usos dos edifícios reabilitados devem ser todos aqueles que defendem a diversidade urbana em termos sociais, em primeiro lugar, mas também, em termos económicos, comerciais e culturais. Importa “misturar” de forma coerente todos os usos viáveis para produzir cidades vibrantes e complexas, nomeadamente o uso residencial, o uso comercial e o uso empresarial. Esta complexidade será determinante para qualificar o espaço público e dar-lhe um caracter identitário e diferenciado.

O tempo que vivemos exige capacidade estratégica e prospectiva. Precisamos de enfrentar a crise pelo lado da criação de realidades mais sólidas e mais duradouras porque mais baseadas no conhecimento, no respeito pela biodiversidade e pela conservação da natureza, mas sem limitar a criatividade humana e a busca de um “artificial”, no sentido de resultante da intervenção humana e social, que possa ir longe na sustentabilidade e na melhoria da qualidade de vida, onde a diferenciação crescente dos estilos de vida possa coexistir com uma convergência real nas oportunidades e na satisfação das necessidades básicas. O sector imobiliário pode e deve constituir um relevante laboratório de ideias e iniciativas que o possam tornar protagonista de uma saída da crise pela inovação, pela intensificação da utilização do conhecimento na busca de modelos de negócio mais competitivos e sustentáveis, pela disponibilidade para correr riscos na correção dos seus próprios excessos e desequilíbrios, isto é, pela sua contribuição para um novo modelo de crescimento económico, mais sustentável e com maior conteúdo em empregos qualificados e bem remunerados.O Prémio André Jordan, que procura precisamente estimular estes caminhos de iniciativa, reforma e inovação, para poder alcançar a relevância e significado que visa obter no desenvolvimento económico e social do país, fará com esta segunda edição mais um pequeno, mas seguro, passo na direção da sua consolidação.