EDITORIAL

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Augusto Mateus
Augusto Mateus
Presidente do Júri

Um “território novo”

A crise económica em desenvolvimento configura, nas suas causas e mecanismos de transmissão, nas suas consequências e impactos e, também, na antecipação possível das suas perspetivas e processos de recuperação, um “território novo”, seja para as políticas públicas, seja para a gestão empresarial, seja para a adaptação dos comportamentos dos agentes económicos, dos consumidores aos investidores. 

A crise apresenta assimetrias muito profundas, afetando muito mais significativamente a produção de serviços do que a produção de bens, sendo alimentada pelas restrições, sem precedentes, quer nas diferentes formas de mobilidade de pessoas, quer nas formas de interação física humana nos processos de trabalho e de consumo.

A reabertura de novos espaços de produção, distribuição e consumo nesta crise económica exige desenvolver, aprofundar e alargar movimentos transitórios, relativamente duradouros, que permitam configurar modelos de negócio suscetíveis de conduzir muitas empresas através da emergência económica enquanto não se normalizarem as condições de saúde pública. Independentemente do progresso da digitalização, que encontra muitas oportunidades nesta crise, os modelos de negócio de transição não deixarão de reforçar a economia das “coisas tangíveis” sólidas, úteis e simples, configurando processos de depuração dos modelos de consumo convencionais em articulação com o aumento dos níveis de poupança, pressionados pela incerteza e insegurança que permanecerão elevados enquanto durar esta emergência económica e social. Os modelos de negócio de transição tenderão a privilegiar o movimento dos bens em direção às pessoas, em detrimento do movimento das pessoas em direção aos bens, com a casa a reforçar drasticamente a sua centralidade e o seu papel como espaço privilegiado de consumo.

A recuperação desta crise económica e social não será eficaz, nem terá sucesso, se for encarada como uma mera continuidade, como um regresso ao crescimento interrompido, como uma simples retoma ou, em alternativa, como uma rutura total, como uma espécie de reinicialização de um sistema perfeito, com respostas e correções para todos os problemas do passado.

O tempo da recuperação económica terá de ser um tempo de reformas e investimentos credíveis com sentido estratégico, com racionalidade económica e com uma sequência operacional planeada. O tempo de uma corrida mais ou menos desenfreada na disputa de dinheiro abundante e fácil para gastar rapidamente em projetos públicos e privados, sem justificação estratégica nem racionalidade económica e financeira demonstrada, animaria as economias durantes os próximos seis ou sete anos, mas não permitiria uma verdadeira, nem duradoura, recuperação económica, a qual dependerá da produção de um salto qualitativo na expansão da produtividade suportado pelo conhecimento e pela inovação.

O terreno próprio do prémio André Jordan, onde a investigação sobre o imobiliário é tomada na sua mais ampla configuração de atividades e iniciativas, encontra nas ideias associadas à reindustrialização, por um lado, à inteligência dos habitats e das plataformas de interação, de que as cidades são exemplos privilegiados, por outro lado, dois pilares muito relevantes no futuro próximo.

A reindustrialização, que nunca deverá ser confundida com a mera expansão da indústria transformadora de bens tangíveis, será muito relevante se pensada como uma nova articulação entre indústria transformadora, serviços e distribuição, como uma nova e forte interação entre o “saber”, o “saber fazer” e o “fazer” nas principais cadeias de valor, enquanto plataformas de criação de riqueza com peso crescente dos valores intangíveis e das competências superiores.

As cidades, pelo seu lado, encontram nestes tempos de transição e recuperação da crise económica e social uma efetiva oportunidade de progresso, trazendo maior diversidade e colocando novos desafios de equidade e coesão. A cidade do conhecimento vai ter de se alargar e densificar no futuro, acomodando sucessivos ciclos de aprendizagem. A cidade empresarial do futuro dependerá decisivamente da centralidade de serviços empresariais avançados de natureza global, permitindo o desenvolvimento de novas plataformas colaborativas para a coesão económica, social e territorial, enquanto a cidade do futuro das viagens e turismo será muito diferente na pós-pandemia.

 

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