EDITORIAL

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Ricardo Guimarães
Ricardo Guimarães
Diretor da Ci

Abrir janelas, quebrar dogmas

Uma vez mais, o Prémio André Jordan coloca à reflexão do mercado e das políticas públicas um conjunto de trabalhos de investigação académica que nos interpelam e ajudam a identificar respostas para os desafios que o futuro nos coloca. Hoje, como ao longo dos 10 anos decorridos desde a primeira edição, cumpre a missão que justificou o seu lançamento, tendo já distinguido um vasto leque de trabalhos que se afirmaram como contributos relevantes e, acima de tudo, oportunos, para o pensamento sobre as cidades e o mercado imobiliário. 

Do ponto de vista da narrativa do Prémio, começava por destacar a Menção Honrosa atribuída à Tese de Doutoramento com o título “Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa: contributo para o entendimento das causas do problema da «casa portuguesa»”, devida não só pela respetiva qualidade científica, mas por constituir uma oportunidade para conhecer a trajetória e os condicionalismos do pensamento arquitetónico português no século XX, que em tudo se relacionam com a evolução da nossa história social e política recente. A Arquitetura, simultaneamente, espelha e molda os equilíbrios coletivos, traduzindo-os numa dimensão plástica que constitui um património artístico, cultural e urbanístico fundamental. O trabalho em apreço permite-nos conhecer o contexto histórico e causas da realização do “Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa”, em 1955, quais os seus protagonistas, desde logo Salazar e Raul Lino, num regime censor do modernismo, e a sua importância para as chamadas “Escolas do Porto e de Lisboa”, influenciando uma geração de autores emergentes que integra nomes como Teotónio Pereira, Távora ou Siza Vieira. Compreendendo todas as perspetivas em conflito, julgo ser evidente que os últimos anos mostraram a relevância do Património para a atratividade do território, havendo um lugar único para a Arquitetura no debate sobre as cidades, o mercado imobiliário e o turismo, âmago do Prémio.

Precisamente, a valorização do mercado e os fatores que justificam a evolução recente vivida desde o fim da crise financeira de 2008 são o tema do Mestrado premiado, com o título “Dinâmica dos preços de habitação em Portugal – os fatores fundamentais do mercado de habitação”, que relaciona, de forma metodologicamente robusta, o crescimento dos preços da habitação com os fatores que, de forma empírica, poderiam ser citados por todos os que conhecem o terreno: (i) crescimento económico, (ii) aumento dos custos de construção, (iii) maior procura internacional e turística e (iv) efeitos da política monetária nas taxas de juro. Este cabaz de fatores sintetiza de forma exemplar a realidade do passado recente, fornecendo pistas para a política futura. Se aceitarmos que assegurar uma oferta “acessível” não deve ser sinónimo de desvalorizar o mercado (pelo contrário) e sabendo que somente podemos esperar mais oferta num contexto de valorização, compreendemos que todas as políticas que visam a desvalorização redundam, sem mais, no congelamento da oferta, seja para fins domésticos ou internacionais. Acessível deve ser sinónimo de redução dos custos e não do valor…

Finalmente, o “Prémio André Jordan 2020”, o Doutoramento com o título “Building-Integrated Agriculture in urban contexts - methodological contributions to sustainability assessment”. Não querendo debater, por incapacidade, os méritos do trabalho em apreço, julgo evidente a virtude de nos obrigar a um exercício de abertura a um futuro diferente, em especial quando o presente é marcado, precisamente, pela normalização de conceitos que antes admitíamos possíveis mas, não obstante, distantes (cite-se, desde logo, o teletrabalho na administração pública!). A geração de um binómio edificação/agricultura é um ideal há muito debatido, mas que hoje nos interpela mais do que nunca. A ideia de uso dos edifícios para a produção alimentar tem algo de utópico. Mas a crise pandémica, que tem elevadas implicações na mobilidade e na necessidade de simplificar os canais de distribuição, aliada à emergência climática, forçam-nos a abrir novas janelas e quebrar dogmas.

Obrigado ao Júri do Prémio, pela sapiência colocada à disposição do mercado ao longo destes 10 anos!

 

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