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OPINIÃO

Diogo Gaspar Ferreira

Diogo Gaspar Ferreira

Presidente da Associação Portuguesa de Resorts

Afinal, o que é a alma do negócio?

Na alma da Coca-Cola está uma receita secreta e no âmago da Google um misterioso algoritmo. Mas, se esses segredos fossem revelados ou descobertos, os seus donos perderiam toda a vantagem competitiva e os respetivos negócios acabariam inevitavelmente?

Cada negócio apresenta uma fórmula, um método, uma capacidade técnica ou algo especial e intrínseco que, na opinião dos clientes, torna aquele produto superior ao dos concorrentes. E pode não ser um segredo. Localização, equipa mais eficiente, melhor aplicação dos recursos disponíveis são apenas alguns dos fatores que, isolados ou combinados, produzem vantagens competitivas intrínsecas. Porém, essas vantagens, que partem de uma característica singular, secreta ou não, precisam de mais ingredientes para assegurarem a competitividade sustentada das empresas. 

O produto precisa de se destacar pelo valor real atribuído pelo público alvo, corresponder às suas necessidades e anseios e ser-lhes apresentado na forma, momento e local adequados. Isto impõe-nos a necessidade de desenvolvermos mais do que as nossas capacidades internas: a obrigatoriedade de sabermos quem são exatamente os clientes, onde estão, quando decidem comprar, a quem, a que preço e o que é que, para eles, realmente tem valor. 

Sem um conhecimento objetivo, atualizado e detalhado dos mercados, não nos seria possível desenhar uma estratégia diferenciadora e focada em prioridades reais e observáveis. Não saberíamos identificar nichos nem novas oportunidades, nem adaptar o nosso produto ou a forma de o comunicar a segmentos com comportamentos, prioridades e necessidades próprios. E como conheceríamos a nossa posição real – não apenas uma perceção falível –  na corrida competitiva em que sempre nos encontramos? 

Se os seus segredos fossem revelados, a Coca-Cola e a Google teriam um problema menor do que se deixassem de compreender os seus mercados, os seus clientes e os seus concorrentes.

O Turismo Residencial é um produto estratégico para o Turismo. Produz um forte efeito multiplicador na economia, promove um círculo virtuoso de investimento, consumo e emprego e gera riqueza e bem-estar para o país. No entanto, tem existido uma grave lacuna de informações estatísticas credíveis sobre este sector, nomeadamente as relacionadas com índices de preços, caracterização da oferta e da procura e da exploração das unidades turístico-residenciais. Tem sido praticamente impossível quantificar resultados de campanhas internacionais, localização e caracterização da oferta, volume e valor das vendas efetivas, nacionalidades, perfis e motivos dos compradores. Este vazio condiciona qualquer tentativa de identificação das necessidades do mercado e respetivas prioridades, dificultando também a fundamentação de estratégias de investimento e a medição dos seus resultados.

Até hoje.

A Associação Portuguesa de Resorts iniciou há um ano o projeto do novo Sistema de Estatísticas do Turismo Residencial (SETR), cofinanciado pelo Turismo de Portugal e em parceria com a Confidencial Imobiliário. Hoje, o projeto torna-se realidade com a sua apresentação pública na Conferência Nacional do Turismo Residencial e do Golfe. Já aderiram ao SETR, ou estão em fase de adesão, muitas entidades promotoras, agentes e operadores financeiros. Estão inventariados milhares de imóveis em venda e cadastradas centenas de transações dos últimos anos. E estes números crescem todos os dias! Às estatísticas da oferta e da procura juntar-se-ão as da exploração turística e um índice de preços específico do mercado de resorts.  

Estão todos convidados para se inscreverem e fazerem parte deste novo sistema, partilhando informações estatísticas e beneficiando, em troca, do conhecimento indispensável e alargado deste mercado. 

É que se o segredo até pode ser a alma de alguns negócios, certo é que a informação é o coração de todos eles.