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OPINIÃO

Gilberto Jordan

Gilberto Jordan

Conselho Editorial da Ci

Desafios para o futuro do imobiliário turístico

Serviço, cultura, organização são alguns dos desafios para a sustentabilidade do mercado de imobiliário turístico em Portugal e o potencial das suas externalidades.

Não surpreende a atual dinâmica positiva no mercado algarvio. Tendo sido posta à prova, a sua atratividade não esteve em causa. É um destino maduro, com décadas de história e projeção internacional, com um potencial sólido. 

No entanto, não podemos ignorar que estamos ainda a ser beneficiados por acontecimentos trágicos em geografias concorrentes. A chamada “primavera árabe” e o acréscimo da insegurança em alguns mercados europeus são exógenos à nossa realidade. Desses movimentos, ampliados por medidas de atração de investimento, resultou um crescimento da procura por parte de um segmento médio superior, desde franceses a brasileiros e asiáticos, com elevado poder de compra e que procura qualidade e que é transversal aos diversos segmentos do mercado.

Perante essas vagas cabe-nos responder com uma oferta compatível e construir uma reputação positiva. A qualidade tem de ser global, envolvendo todos, desde a restauração, táxis, transportes coletivos, paisagismo, serviços públicos, SEF, ordenamento, … tudo, pois não podemos considerar que este público está assegurado. Portugal não está consolidado. Estar na moda não é estrutural. As modas passam. Temos de trabalhar para nos mantermos na moda por muitas décadas. Vivemos hoje o que sucedeu a Barcelona há 20 anos. Fizeram investimentos que tiveram efeitos quase imediatos por serem mediáticos e estruturantes, como as Olimpíadas. Nós fizemos a Expo, o Euro 2004 e uma série de investimentos estruturantes com um efeito não imediato mas agora essas mudanças potenciam as transformações que hoje vivemos. 

É preciso manter e melhorar a atuação. Boas campanhas. A fiscalidade é fundamental. Os regimes RNH e Golden Visa têm de ser acarinhados, sendo trágico estarmos a desdenhar investimentos que, se no começo são imobiliários, depois podem ser alargados para o tecido produtivo pois são realizados por indivíduos com capacidade financeira e um histórico de criação de riqueza, acabando por contagiar o ambiente empresarial nacional. 

Depois, há novas tendências que devemos ter presente e devem moldar a oferta futura. Depois de atuar sobre o “hardware”, temos que seriamente incrementar o “software”, i.e. a criação de valor, o conteúdo que oferecemos ao visitante e obviamente ao residente. Para além do acima descrito a outra dimensão prende-se com a cultura. A nova realidade turística centra-se nas cidades e no consumo intelectual ou de entretenimento e estas são, acima de tudo, uma produção cultural. Neste campo, há muito por fazer. Custa ver alguns dos principais monumentos e museus nacionais sem a necessária capacidade operacional, quando poderiam ter uma forte fonte da procura e atratividade turística. O turista qualificado, que é o que interessa captar, está disposto a pagar bem por uma experiência cultural adequada. Sem dúvida, o lado cultural e simbólico do país é essencial. A valorização do património edificado e monumental é básica.

Outra decorre da designada “sharing economy”. Não creio que deixará de haver uma procura qualificada que pensa em ter uma segunda casa. Mas, numa economia digital, a segunda habitação pura, num regime de uso próprio, tenderá a diminuir, aumentando o peso da exploração turística. É uma realidade que vai exigir uma construção do edificado e urbano melhor. Aumentará a ligação do imobiliário aos serviços a prestar, sendo certo que é o turismo organizado que cria mais valor. Por esse motivo acredito mais em operações imobiliárias integradas, por exemplo em resorts em sentido lato, do que em operações dispersas. A escala tem a sua importância. 

Por fim, isto liga com outro desafio central que é a construção de uma estratégia integrada da oferta turística. Uma verdadeira assunção da nação que isto é uma Indústria com características próprias que exigem respostas específicas, particulares e prioritárias. A orientação para o turista tem que ser total, consciente da sua importância para a riqueza do país. 

Em Portugal temos a possibilidade de triunfar numa escala que ainda não nos apercebemos coletivamente. Cabe-nos trabalhar para isto.