Ler Edição

OPINIÃO

Miguel de Castro Neto

Miguel de Castro Neto

Conselho Editorial da Ci

Informação é valor: A analítica urbana e o investimento imobiliário

O processo acelerado de urbanização global a que assistimos (hoje 50% da população mundial vive em espaços urbanos, estimando-se que em 2050 alcance os 75% da população global) concentrada em apenas 2% da superfície terrestre, mas responsáveis pela produção de 80% do PIB global e consumindo 75% dos recursos naturais, produzindo 50% do lixo global e emitindo 60 a 80% dos Gases com Efeitos de Estufa (UNEP, 2017) coloca às cidades dois grandes desafios: por um lado garantir a qualidade de vida a quem nelas vive, trabalha ou visita; por outro lado, alterar hábitos e comportamentos visando promover o combate às alterações climáticas.

Esta realidade tem vindo a colocar uma enorme pressão não apenas a quem governa a cidade, mas também a todos os que aí desenvolvem os seus negócios, com o objetivo de gerir serviços e infraestruturas de forma a garantir a adoção de processos mais eficientes na utilização dos recursos permitindo assim assegurar a necessária qualidade de vida nas áreas urbanas.

É neste contexto que assistimos à proliferação de iniciativas de "Cidades Inteligentes" em todo o mundo, como resposta estratégica para os desafios e oportunidades da crescente urbanização e da emergência das cidades como espaço de desenvolvimento social e económico, tirando partido dos mais recentes desenvolvimento tecnológicos disponíveis. Entre estes destacamos as atuais tremendas capacidades de sensorização e recolha de dados, surgindo todos os dias novas evidências do potencial transformador que esta nova realidade induz decorrentes do Big Data, de novos modelos analíticos, da inteligência artificial e da robotização, que ainda estão muito aquém de estar a ser explorados em pleno.

Encarando a cidade como uma plataforma, surgem novas oportunidades para o investimento imobiliário. As capacidades da analítica urbana, apresentadas sob a forma de dashboards de visualização de informação, permitem decisões em tempo real com elevado valor económico ou, indo mais longe, construindo capacidades preditivas e prescritivas de forma a anteciparmos o futuro ou mesmo a condicioná-lo.

Cruzando dados de múltiplas origens e proveniências, internas e externas, podemos idealizar um sistema de apoio à decisão que, para um determinado ativo, permite conhecer de forma holística o seu valor atual e potencial cruzando não apenas a informação do comportamento do mercado, mas também do contexto onde está inserido (características socioeconómicas e existência de serviços, infraestruturas, espaços verdes, etc.), dos instrumentos de gestão territorial que o condicionam e dos projetos de investimentos que se antecipam, dos fluxos de tráfego de pessoas e veículos, de cartografia temática das mais diversas naturezas (desde qualidade do ar a mapas de criminalidade), etc.

Este novo mundo da analítica urbana que hoje desponta desafia a nossa capacidade de processar dados e transformá-los em informação, que efetivamente suporta a tomada de decisão, uma vez que apenas um conhecimento profundo do negócio permite construir tal modelo.

Gerir na atualidade sem medir, isto é, tomar decisões não baseadas em factos mas em opiniões, é um risco que empresários e organizações não podem correr quando definem as suas estratégias ou gerem as suas operações e a nova analítica urbana é o instrumento que precisamos para responder aos desafios do futuro, já hoje.