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OPINIÃO

Vasco Peixoto de Freitas

Vasco Peixoto de Freitas

Prof. Catedrático da FEUP

A dinâmica da reabilitação dos centros históricos exige uma visão de futuro

É inquestionável a extraordinária dinâmica da reabilitação do centro histórico do Porto que, num período muito mais curto do que muitos imaginavam, está a transformar a cidade com um impacto muito positivo na economia, na criação de emprego, no investimento estrangeiro, nas receitas municipais e na regeneração urbana.

Considero de crucial importância refletir sobre os seguintes aspetos: a) velocidade exigida às obras de reabilitação e consequente risco na qualidade e durabilidade das intervenções; b) Intervenções que não respeitam o valor patrimonial das construções existentes, incapazes de suportar programas adequados, que se traduzem muitas vezes na demolição de todo o edifício preservando apenas a fachada; c) custos desajustados ao valor intrínseco do edifício reabilitado ou da renda que lhe está associada; d) esvaziamento das atividades “normais” da cidade, como sejam a habitação permanente, o comércio tradicional e a vivência de “bairro”; e) adoção de soluções construtivas que não são verdadeiramente eficientes do ponto de vista energético e sustentáveis.

Intervenções de reabilitação demasiado rá- pidas não são compatíveis com a elaboração de estudos de diagnóstico aprofundado e de obras suficientemente controladas. É da maior importância contribuir para a monitorização de soluções de forma a evitarem-se erros sucessivos.

Opções bastante generalizadas de reabilitar destruindo tudo exceto a fachada devem ser combatidas. No entanto, só será possível controlar essa tendência com conhecimento técnico-científico sobre o valor e desempenho da preexistência. Deve ser feito um esforço para sintetizar recomendações de caracter prático que devem estar acessí- veis a todos. A qualificação dos projetistas, consultores e empresas terá de ser também uma preocupação. Estamos numa fase em que a escolha e contratação se baseia mais em condicionantes económicos do que na experiência e conhecimento técnico. As consequências serão inevitavelmente a menor qualidade e durabilidade, pelo que nos devemos questionar sobre futuros custos de intervenções de correção das patologias.

Uma valorização especulativa deve merecer preocupação, tendo em atenção que o processo de reabilitação do Porto terá de durar muitos anos, e só uma estratégia continuada permitirá ter sucesso. O risco são oscilações de mercado que afetariam toda a cadeia de valor.

Muitas das intervenções de reabilitação centram-se na atividade turística, que se traduziu na abertura de um sem número de hotéis, hostels, alojamento local e restaura- ção. O valor cultural e a vivência dos centros históricos é de uma grande importância na captação do turismo e na qualidade de vida das cidades. Será um erro enorme reabilitar destruindo a autenticidade da cidade. Uma cidade sem habitação permanente não é uma cidade continuamente viva. São muitos os exemplos negativos de zonas de cidade que se esgotam por não serem plurifuncionais.

A eficiência energética pode e deve ser o motor financeiro da reabilitação, desde que se definam as melhores soluções e não estejamos condicionados por opções (envolvente ou instalação de equipamentos) ou pela etiqueta energética que impliquem utilizar mais do que o justo necessário, seguindo um modelo europeu que nos foi imposto e que não atende à nossa realidade climática, económica e cultural.

Se não formos suficientemente sagazes nas nossas estratégias individuais de interven- ção e se a entidades responsáveis não tiverem capacidade de influenciar, com políticas de incentivos, a forma de reabilitar a cidade, como um todo, corremos o risco daqui a uma década de nos lamentarmos por não termos sido capazes de aproveitar os enormes investimentos privados e públicos para reabilitar a cidade de forma a não perder a sua atratividade. Só a autenticidade de uma cidade reabilitada, inclusiva e equilibrada poderá ter sucesso no futuro.