Ler Edição

EDITORIAL

João Loureiro

João Loureiro

Conselho Editorial da Ci

Imobiliário e crédito à habitação serão apostas também em 2019

O principal problema da economia foi o registo de elevados e crónicos défices externos (medidos pelo saldo da Balança Corrente), que conduziram a um contínuo agravamento da dívida externa do país, por sua vez reflectido na degradação da Posição Líquida de Investimento Internacional.

Aquele foi o resultado de uma economia relativamente fechada em termos de exportações (que, em 2008, representavam apenas cerca de 30% do PIB), assente fundamentalmente em procura interna, tanto por parte do sector privado, como por parte do Estado, e que foi sendo alimentada com financiamento bancário fácil (em termos de quantidade) e barato, já que as taxas de juro não reflectiam o verdadeiro risco dos devedores. Na ausência de poupança interna, os bancos nacionais, por sua vez, refinanciavam- -se, também eles de forma fácil e barata, em outros países da Área do Euro. 

Como o endividamento está limitado ao risco que os credores estão dispostos a correr, quando tal limite foi atingido o Estado português e a banca nacional deixaram de se conseguir financiar no exterior e o “modelo económico” português caiu por terra. O ajustamento que se lhe seguiu foi doloroso (mas inevitável) e, depois de alguns anos com taxas de crescimento económico negativas,em 2017 conseguimos atingir um “pico” de crescimento anual de 2,8%. Em 2018 o crescimento abrandou para 2,1% e para 2019 as perspectivas não são melhores. As previsões mais recentes da Comissão Europeia, do Banco de Portugal e do FMI apontam para que no ano corrente o PIB real cresça 1,8%, valor que reflecte revisões em baixa tanto da Comissão como do Banco de Portugal. Trata-se de um valor modesto, atendendo ao contexto que tem sido bastante favorável, tanto em termos de conjuntura externa, como de política monetária. Mas é um valor que também reflecte o facto de o ajustamento ocorrido em Portugal não ter sido aproveitado para alterar, de forma mais notória, a economia portuguesa. É certo que as exportações passaram a representar 40% do PIB, valor que, mesmo assim, por comparação com países europeus da mesma dimensão, é um valor baixo.

Depois de profunda crise no período de maior desalavancagem da economia portuguesa, o sector imobiliário voltou a ter protagonismo pela positiva nos últimos anos, em parte animado por não residentes, seja de forma directa, ou indirectamente na sequência do forte aumento na procura de serviços de turismo. Também a procura por parte de residentes animou, respondendo ao (des)incentivo das baixas taxas de juro (para quem aforra e para quem se endivida). É expectável que em 2019 o dinamismo no sector imobiliário se continue a observar, não só porque a alteração da política monetária do BCE ainda não se fará sentir de forma visível, quer porque o sector bancário, à falta de melhores alternativas para a aplicação dos recursos disponíveis, vai manter a aposta no produto “crédito à habitação”. Ir-se-á manter a concorrência bancária que se vem observando neste segmento. Os dados do Banco de Portugal mostram que, passada a crise de liquidez, as taxas de juro em Portugal para a nova concessão de crédito a particulares para a compra de habitação apresentam uma notória tendência de queda, e com valores significativamente inferiores aos praticados, em média, nos restantes países da Área do Euro. Mas se é verdade que a banca tem apostado e vai continuar a apostar no crédito à habitação, é de esperar que não volte a arriscar, como arriscou no passado, no financiamento da construção e na promoção imobiliária. Esse é o comportamento que os erros do passado aconselham.