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EDITORIAL

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Miguel de Castro Neto
Miguel de Castro Neto
Conselho Editorial da Ci

Qual o papel da inteligência urbana e territorial no combate ao COVID-19

O combate ao COVID-19 tem colocado o urbanismo e o ordenamento do território no centro das atenções e destacado os autarcas como os protagonistas das múltiplas batalhas diárias travadas.

É precisamente neste contexto, onde o desenho das cidades e vilas impacta de forma estrutural a evolução da pandemia e condiciona as opções disponíveis para gerir a crise que atravessamos, que constatamos que aquelas autarquias que adotaram estratégias visando tirar partido da transformação digital para lançar iniciativas de inteligência urbana estão hoje melhor apetrechados para promover uma mais eficiente utilização de recursos (fator crítico no atual contexto). Mais importante, possuem eventualmente mecanismos de recolha, armazenamento e processamento de dados (num contexto de big data onde temos a oportunidade de tirar partido da Internet of Everything e monitorizar equipamentos, sistemas e pessoas) que lhes permitem conhecer, em tempo real e com elevada granularidade espacial, as necessidades do território que governam, sendo capazes de proactivamente antecipar necessidades e colocar no terreno os meios e as respostas com uma elevada precisão espacial e temporal, garantindo assim o cumprimento das quatro máximas que estão incluídas no ODS 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis que, nunca como hoje, fizeram tanto sentido: sustentabilidade, inclusão resiliência e segurança.

Hoje, ao analisarmos a evolução da pandemia, constatamos que existe um padrão entre a configuração do tecido urbano, a sua localização e características da população residente e o número de infetados que nos levam a pensar que o futuro passa também por novas abordagens para o crescimento das cidades e vilas, novas estratégias para a habitação em paralelo com um visão holística onde as várias dimensões da realidade urbana se interligam, com especial ênfase no espaço público, nas infraestruturas verdes e na mobilidade, sendo para o efeito imperioso conhecer em tempo real e de forma dinâmica as deslocações das pessoas.

No entanto, esta necessidade coloca também novos desafios, entre os quais ganham relevância no contexto do combate à pandemia a privacidade e a utilização ética dos dados a que podemos ter acesso. Efetivamente, quando somos confrontados com notícias como a de que um infetado com coronavírus foi à padaria e ao supermercado, tendo sido detido à porta de casa ainda com os sacos das compras na mão, temos de nos perguntar se não devíamos colocar ao serviço do interesse público e da segurança sanitária, abordagens mais efetivas de monitorização e controlo, como aquelas que sabemos hoje terem sido utilizadas com sucesso nalguns países e cidades asiáticas.

Paralelamente e considerando a mobilidade uma peça chave no combate à pandemia, na medida em que tudo aponta no sentido da atual situação resultar de problemas decorrentes da utilização de transportes públicos por um número superior ao recomendado, em determinados locais do país, por um conjunto de pessoas cuja profissão não é passível de ser convertida em teletrabalho visto que asseguram um conjunto de atividades de suporte ao funcionamento da economia e ao fornecimento de produtos e serviços que não podem ser interrompidos. Assim, seria vital ajustarmos dinamicamente a oferta de transporte à procura através de um conhecimento em tempo real da ocupação os transportes, a utilização complementar aos comboios com a utilização de autocarros (aproveitando a subutilização que decorre da quebra do turismo) e criando aplicações que permitissem reservar um lugar em paralelo com o desfasamento de horários para distribuir a hora de ponta por um maior período de tempo.

Se temos hoje disponível uma extraordinária capacidade tecnológica, é nossa obrigação tirar partido da mesma garantindo um melhor serviço à comunidade e, em paralelo, uma utilização ética dos dados e o respeito da privacidade individual.

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