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EDITORIAL

Miguel de Castro Neto

Miguel de Castro Neto

Conselho Editorial da Ci

Libertando o poder dos dados da cidade

As cidades são hoje vistas como verdadeiros motores de desenvolvimento económico à escala global, capazes de atrair talento, gerar riqueza e assegurar qualidade de vida a quem nelas vive, trabalha ou visita.

As cidades são hoje vistas como verdadeiros motores de desenvolvimento económico à escala global, capazes de atrair talento, gerar riqueza e assegurar qualidade de vida a quem nelas vive, trabalha ou visita.  

Mas esta realidade coexiste com um grande número de desafios que as áreas urbanas enfrentam na atualidade, como sejam a crescente população urbana e a pressão que esta coloca na gestão de serviços e infraestruturas, a sustentabilidade impactada por padrões insustentáveis de consumo de energia, de produção de resíduos, de emissões de gases com efeitos de estufa, entre outros, terminando com a segurança e a resiliência. 

Neste contexto a transformação digital em curso, que impacta todas as dimensões da nossa sociedade, oferece uma oportunidade única de encontrarmos processos mais eficientes e, francamente mais importante, tirarmos partido da expansão da fronteira de possibilidades com que hoje nos confrontamos.

Efetivamente, mais do que usar as novas tecnologias de informação e comunicação, a Internet das Coisas, a ciência dos dados e a inteligência artificial para otimizar os processos que asseguram o funcionamento das nossas cidades, importa ir mais longe e tirar partido desta nova realidade para adotar novos modelos de planeamento e gestão e promover a criação de novos produtos e serviços onde a criatividade é a única limitação para um novo futuro que pode ser construído já hoje.

A título de exemplo e olhando para a realidade nacional, somos diariamente confrontados nos media com uma leitura onde se considera que nas principais cidades portuguesas nos deparamos com um enorme conjunto de problemas, desde um modelo de mobilidade inoperativo, passando pela pressão sobre o mercado imobiliário, até ao excesso de turismo.

No entanto, notícias como a queda de meio milhão de visitantes nos museus nacionais em 2018, levam-nos a pensar se efetivamente existe um problema ou se, pelo contrário, não estamos na realidade a não saber tirar partido da referida transformação digital para alterarmos os modelos de planeamento e gestão das nossas cidades e, de forma colaborativa e numa abordagem de cidade como plataforma onde os dados fluem de forma aberta (mas segura), criarmos novos modelos de governação do território onde o conhecimento dinâmico e em tempo real do metabolismo da cidade permite ajustar a oferta e a procura dos seus serviços de uma forma pro-ativa, sustentável e resiliente.

Mas também no contexto da imobiliária existem inúmeras oportunidades para agregar informação, tornando o mercado mais transparente e eficiente. Sendo verdade que hoje, com o contributo de empresas como a Confidencial Imobiliário, já temos acesso a muita informação do mercado, ainda existe um enorme potencial de agregarmos inteligência ao sector. A título de exemplo, imaginemos que a cidade disponibilizava no seu portal de dados abertos um conjunto de dados que permitia conhecer o património imobiliário da cidade, respetivas características (incluindo aquelas que permitiriam estimar o CAPEX e o OPEX do investimento) bem como dados de enquadramento de base territorial que permitiriam para um determinado imóvel dizer qual o perfil sócio-demográfico do bairro e que, a uma distância de 15 minutos a pé, poderia ter acesso a que serviços de interesse público (escolas, serviços de saúde, museus, etc.).

Sendo inegável que informação é poder e que os dados têm vindo a ser apelidados do petróleo do século XXI, apenas a sua exploração e a capacidade de os processar visando entregar informação de apoio à tomada de decisão e à condução da ação serão efetivamente capazes de alterar de forma positiva e continuada os atuais modelos de governação das nossas cidades.