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EDITORIAL

Ricardo Guimarães

Ricardo Guimarães

Diretor da Ci

Não deixe de ler, refletir e interiorizar na sua matriz de atuação o debate implícito nos trabalhos premiados.

Caro leitor, através da presente publicação trazemos-lhe os quatro artigos-síntese dos trabalhos premiados no âmbito do Prémio André Jordan, Edição 2014.

Assim, o Prémio cumpre um dos seus principais desafios, disseminando pelos profissionais do imobiliário o conhecimento científico, em especial aquele que é produzido pelo meio académico nacional e que tem maior interesse para esse mercado. Não deixe, portanto, de ler, refletir e interiorizar também na sua matriz de atuação o debate implícito nos trabalhos premiados.

Permito-me dizer, nesta e nas anteriores edições do Prémio.

Depois de na Edição de 2010 o Prémio ter incidido em áreas mais “core” do mercado, como sejam o investimento imobiliário e a sustentabilidade, e de na Edição de 2012 se ter aberto a outras disciplinas, premiando uma tese na área da sociologia, na Edição 2014 expande novamente o seu campo de interesse, juntando aos estudos premiados dois trabalhos relacionados com a arquitetura. A investigação em “economia do imobiliário” (espaço definido pelo Prémio) é, portanto, aberta a todos os trabalhos que, mesmo partindo de outras áreas de investigação, têm consequências económicas ou de mercado.

O júri não teve vida fácil nesta edição. Primeiro, pelo grande número de candidaturas, oriundas de quase todas as principais universidades portuguesas e, já, algumas internacionais. Depois, pelo interesse desses trabalhos, facto patente na atribuição de duas menções honrosas na categoria de Teses de Doutoramento.

Começando pela dissertação de mestrado, é-nos proposto um exercício de análise sobre o potencial de conciliação entre os objetivos de sustentabilidade e de contenção nos custos de promoção imobiliária. No estudo realizado, aplicado ao ambiente urbano da Alta de Lisboa, a autora indica que é possível identificar medidas concretas que melhoram o desempenho energético dos edifícios, alcançado ainda poupanças nos custos do projeto. Para tal, é essencial que esses objetivos estejam contemplados logo na etapa inicial de conceção e de planeamento.

Mas é, antes de mais, essencial que haja a consciência desse potencial, fugindo de equívocos que contribuem para pôr em lados opostos dois vetores essenciais do mercado: investimento e sustentabilidade.

Outros desafios são colocados pelos dois trabalhos objeto de menções honrosas.

No primeiro, é abordada a relação entre o mercado imobiliário e o sistema financeiro. Sem dúvida um dos temas de maior atualidade…

Neste caso, o autor coloca a ênfase na forma como se criou uma ilusão relativamente à evolução do mercado e como as instituições de crédito alinharam em comportamentos de herding, ou seja, “em rebanho”, na prática assumindo riscos em razão de um mecanismo de resposta comum, autojustificado. Conforme o autor refere, o herding consistirá num «fenómeno em que os indivíduos seguem o exemplo dos outros num contexto de decisão sequencial sem fazer uso das próprias informações».

As consequências são conhecidas, assim como os efeitos na regulação e na relação entre esses dois mercados.

No segundo, importa antes de mais dizer, está-se perante um trabalho de grande fôlego, no qual é feito um levantamento dos empreendimentos turísticos lançados ao longo da costa portuguesa nos últimos 40 anos, para os enquadrar numa leitura daquele que é o papel do território no “produto turístico” e qual o papel do projeto de arquitetura nesse desenho conceptual.

A arquitetura é um elemento-chave na preservação e potenciação do “valor dos lugares como produtos”, um ativo essencial para todo o mercado. A reflexão sobre o “produto turístico” ganha especial relevo, não só por marcar o litoral português, mas por se apresentar como o setor que mais dinâmica pode ter no futuro.

Finalmente, uma nota quanto à tese de doutoramento premiada. Trata-se de um ensaio de raiz arquitetónica sobre o potencial de conversão de bairros urbanos, tomando Alvalade como caso de estudo, tendo em vista o acolhimento de populações seniores, integrando-as na vida normal do bairro, se possível conservando-as em casa, em contraponto aos “modelos de transferência” em que são institucionalizadas.

Trata-se de um exercício, talvez utópico, de intervenção no edificado existente, conciliando a reabilitação urbana com a resposta aos desafios sociodemográficos que as cidades cada vez mais enfrentam. Mas esse terá de ser o caminho, fazendo da reabilitação uma oportunidade.

Obrigado a todos os que concorreram. Obrigado aos membros do júri. Até 2016!