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OPINIÃO

Francisco Horta e Costa

Francisco Horta e Costa

Conselho Editorial da Ci

Lisboa, velha cidade, Cheia de encanto e beleza! Sempre a sorrir tão formosa, E no vestir sempre airosa.

Amália cantava este fado e se calhar nunca sonhou que Lisboa um dia viesse a sorrir tanto como agora. É impressionante como até agora parecia que a cidade era um segredo guardado só para alguns. A recuperação económica, as baixas taxas de juro, os golden visas, os residentes não-habituais e os incentivos à reabilitação urbana têm a sua quota-parte na enorme transformação da cidade, mas tudo isto seria em vão se a matéria-prima não fosse absolutamente singular no quadro das capitais europeias. Lisboa consegue surpreender constantemente até os que sempre aí viveram e tem cada vez mais encanto e beleza. A proximidade de Lisboa ao mar é uma vantagem inigualável no contexto Europeu e atrai pessoas de todo o mundo que abdicam de melhores salários em benefício de uma melhor qualidade de vida ou não vivêssemos a época do “work-life balance” e do “wellbeing”. 

As oportunidades no mercado imobiliário são muitas, nomeadamente na reabilitação urbana, onde a grande maioria dos apartamentos se vão vendendo em planta e por isso a procura por mais prédios continua muito acesa, agora alargada a várias zonas da cidade. Existe também uma oportunidade cada vez mais evidente, que está relacionada com a promoção de casas para portugueses, uma vez que o nosso bolso (com honrosas exceções) não aguenta pagar os preços exorbitantes que se praticam nas melhores zonas da cidade. Por esta mesma razão e por outras associadas ao estilo de vida das novas gerações, há que estimular o mercado de arrendamento. A mobilidade e as restrições ao crédito, bem como o moderado crescimento dos salários, faz com que muitos jovens não possam ou não queiram comprar casa, sendo que daqui pode nascer um produto de investimento para fundos imobiliários nacionais ou internacionais, que são os chamados edifícios “multi-family”, tão usuais na Europa do Norte e nos Estados-Unidos. Quer a Câmara Municipal (com o programa Renda Acessível), quer a própria Estamo, têm um papel fundamental nesta equação dado serem proprietários de muitos edifícios e terrenos em Lisboa que se adequam a este propósito. 

O que não nos podemos esquecer é que parte do glamour e da atratividade de Lisboa está exatamente nos Lisboetas! No dia em que a cidade ficar descaracterizada, torna-se um estereótipo igual a tantas outras. É necessário conservar algum comércio tradicional, lojas que não se encontrem em mais lado nenhum e que não podem ser todas invadidas por marcas internacionais que se veem em qualquer capital europeia. Lisboa tem que continuar a apostar pela singularidade. 

A cidade cresceu, tem muitos turistas (e ainda bem!) e por isso Lisboa tem que investir na limpeza e na segurança. Não podemos ir aos contentores do lixo reciclado e encontrarmos quase sempre uma lixeira a céu aberto e também não podemos andar a pé pela Rua Augusta em pleno dia e ser-nos oferecida droga em todos os cruzamentos! São coisas de país do terceiro-mundo e que precisam de ser resolvidas rapidamente.

Lisboa é cada vez menos uma “velha cidade” como cantava Amália e veste de uma forma cada vez mais airosa, mas tem que ser cuidada, acarinhada e trabalhada para se colocar no patamar das principais capitais Europeias, a todos os níveis.